Dói dentro
abaixo do ombro, mais pro meio, pra baixo da garganta
Eu estava olhando foto dos meus amigos. De repente, um nó na garganta. Hoje eu verbalizei: em dezembro faz 3 anos que não vou pro Brasil. Voltei em junho de 2020, pandemia, tinha ficado 6 meses lá trancada em casa. Medo do incerto no ar. Medo de sair e passar pros meus pais o Covid. Escolhi ficar em casa trabalhando, conversando com meus pais, cuidando da Alice, me recuperando do segundo divórcio, resgatando a mim mesma.
Eu li hoje assim: os humanos procuram situações sociais porque libera oxitocina e isso ajuda a lidar com stress. Ver de longe as pessoas que a gente admira, gosta, se inspira, é difícil. Não poder participar da vida delas. O que elas fizeram ontem? Qual a boa do final de semana? Tem os filhos também… não vi gravidez, não vi nascer e não estou vendo crescer. Não estou comemorando as vitórias, não estou apoiando as fases difíceis. Em um segundo eu consigo ver várias cenas muito rápidas de momentos felizes com eles. Risadas, sabores, noitadas, café na casa ou na lojinha, chá no templo budista, caminhadas no meio do mato, comidinhas feitas com amor, churrasco e conversa fiada. Tenho sorte. Eu recebi tantas demonstrações de carinho, que me vem o nó na garganta, as lágrimas nos olhos e uma vontade de chorar o tempo que passa e a vida que se desenrola, assim, de longe.
O que é que eu estou fazendo aqui? Sabe quantas vezes eu me pergunto isso? Mas aí hoje aconteceu algo interessante também. De repente eu pensei: e se eu fosse embora daqui amanhã? E já comecei a pensar exatamente da mesma forma, mas com as pessoas próximas aqui. No fim, a gente tá sempre deixando algo pra trás e começando algo novo. O tempo todo. Fizemos isso a vida toda, mudando de escola, mudando de cidade, mudando de bairro, mudando. E é uma mistura de coisa, porque ao mesmo tempo que dá pra dizer que se tem muitos amigos, não se tem ninguém. Quero dizer, com cada um existe uma experiência vivida que é única e é feita de momentos. A gente acha que aquilo vai voltar, mas não dá pra saber quando vai ser a sua última vez fazendo aquilo com eles.
Fiquei sabendo ontem de uma amiga que faleceu. Ninguém gosta de falar sobre isso. Nem a palavra soa bem, mas foi isso que aconteceu. A gente foi amiga na infância, se afastou e se achou de novo em 2019. O plano era a gente se encontrar de novo. Estávamos nos falando de vez em quando, mas não deu tempo. Eu não sei nem do que foi e não tenho coragem de perguntar para os parentes dela. Doeu. Uma dor totalmente invisível. Uma dor de saudade não vivida. Fica aquele “e se“.
A sensação do “e se” é a pior. Escrevi isso onte a noite e acabei cochilando. Agora já é de manhã e olha a coincidência (ou não): voltando pra casa, passei na frente da escola onde a Alice não vai mais estudar. Ela começou a chorar do nada. Parei a bicicleta: Alice, o que foi filha? “Tô com saudade do meu l’asilooo… quero voltar pra minha escola”. Aí, foi como a continuação do texto inacabado aqui: não dá pra voltar filha, é assim mesmo, a gente vai vivendo e as coisas que a gente passa vão ficando pra trás. Precisa aproveitar todos os momentos, todos os segundos, porque eles não voltam.
A cada segundo a gente deixa o segundo anterior pra trás.
E eu me observo: a impressão que tenho é que ao tomar contato com algo que toca profundamente, aquilo fica em stand by, e que, como se fosse por impulso, como se fosse sem querer, saem pensamentos, textos e situações. A semente tá lá atrás.
“Estale os dedos e veja se consegue encontrar o estalo enquanto ele acontece. Está acontecendo no presente? Quando estalamos os dedos isso é presente ou passado? O primeiro estalo que aconteceu está no passado - já acabou. O segundo estalo ainda não aconteceu, logo está no futuro. E entre os dois, não há o momento presente do estalo.”
Khenpo Tsültrim Gyatso - O Sol da Sabedoria.
A dorzinha incômoda continua.
A foto da capa é do Frank Moth e se chama: Missing the ones we Left Behind - until we meet again and this time forever.

Nossa, Sarah, tenho pensado muito sobre isso, sabia? Sobre essa coisa de abrir mão de certas presenças para viver novas experiências. Acho que não tem como fugir da saudade e desse vazio. Só queria o teletransporte e mais tempo livre para dar uma minimizada nesse sentimento. Ler texto foi uma continuação das minhas reflexões. Adorei que você tá aqui tb! Tô amando esse espaço das Newsletters! Seja bem-vinda! ❤️